Androides sonham com ovelhas elétricas? – Philip K. Dick

img_3558Tradutor:  Ronaldo Bressane

Editora: Aleph

Edição: 1

Ano: 2017

Páginas: 336

Escrito em: 1968

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” Sou um filósofo ficcionista, não um escritor de romances; meus romances e contos são empregados como meios para formular minhas percepções. O centro da minha obra não é a arte, mas sim a verdade.” Philip K. Dick

Com essa citação de Philip K. Dick inicío a minha resenha de Androides sonham com ovelhas elétricas?Um dos livros mais famosos do autor que inspirou sua adaptação para o cinema Blade Runner em 1982 e que, em 2017 tivemos sua continuação Blade Runner 2049. 

Blade Runner de 1982 para quem não conhece poder apreciar partes do filme e principalmente essa trilha sonora composta por Vangelis. Uma das trilhas mais lindas da história do cinema ❤ 
(curiosidade: Quando eu tinha cerca de 13 anos escutava o CD do Vangelis e meditava com essas músicas, a isso, meu marido chamou loucura 😀 

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Antes das impressões, vamos nos situar com algumas considerações sobre o autor e uma breve sinopse.

Philip K. Dick é um dos autores mais ilustres não só para a ficção científica como para a produção literária como um todo. Infelizmente só posso dizer “foi” pois em vida o autor viveu em miséria e seu reconhecimento só veio após a morte, em 1982(pouco antes de estrear Blade Runner no cinema), tanto que hoje em dia existe um prêmio de ficção científica em nome dele. Dick escreveu mais de 40 romances e cerca de 130 contos, uma grande quantidade para quem viveu tão pouco. Dentre suas obras, várias foram base de inspiração para mais adaptações cinematográficas como Minority Report, Agentes do Destino, Total Recall, Screamers, entre vários filmes e a recente série da Amazon Prime Eletric Dreams.

” Dick acredita que a ficção científica é o campo ideal para a discussão das ideias puras.”  Rodrigo Fresán no prefácio do livro Androides sonham com ovelhas elétricas?

SINOPSE: Rick Deckard é um caçador de recompensas. Ao contrário da maioria da população que sobreviveu à guerra atômica, não emigrou para as colônias interplanetárias após a devastação da Terra, permanecendo numa San Francisco decadente, coberta pela poeira radioativa que dizimou inúmeras espécies de animais e plantas. Na tentativa de trazer algum alento e sentido à sua existência, Deckard busca melhorar seu padrão de vida até que finalmente consiga substituir sua ovelha de estimação elétrica por um animal verdadeiro; um sonho de consumo que vai além de sua condição financeira. Um novo trabalho parece ser o ponto de virada para Rick – perseguir seis androides fugitivos e aposentá-los. Mas suas convicções podem mudar quando percebe que a linha que separa o real do fabricado não é mais tão nítida como ele acreditava. Em ‘Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?’ Philip K. Dick cria uma atmosfera sombria e perturbadora para contar uma história impressionante, e, claro, abordar questões filosóficas profundas sobre a natureza da vida, da religião, da tecnologia e da própria condição humana.

O livro já começa abordando umas das questões mais complexas da humanidade, a insatisfação e busca pela felicidade, temas que, como veremos, vêm da influência do autor em suas leituras de filosofias e religiões orientais.

Um dos paradoxos exposto no livro é justamente na “não vida” ou o “vazio” dos humanos, como exemplo a depressão de Iran, esposa de Rick, enquanto a androide Rachel demonstra alegria e vontade de viver. Outra forma que o autor usou para antagonizar o vazio e o acúmulo foi inventando o termo “Embagulhação” usado para explicar  como os amontoados de lixo se multiplicam, significando a capacidade de as coisas criadas pelo homem tomarem o lugar dele. Enquanto isso o vazio ganha mais sentido e está presente em vários detalhes: no olhar dos androides, na paisagem de Mercer, no som surdo dos subúrbios abandonados, do corredor do prédio de Isidore.

Essa reflexão se estende até um patamar mais profundo, quando o autor coloca o ser humano como “maquinizado” e reificado enquanto os androides mais evoluídos começam a manifestar sentimentos de empatia, amor e medo da morte.

” Só que aí senti como isso era doentio, perceber a ausência de vida, não só no prédio, mas em tudo, e não reagir a nada, percebe? Não, acho que você não entende. É isso que passou a ser considerado uma indicação de doença mental, chamam-na de “ausência de afeto adequado”. Então, deixei o som desligado e fiquei testando o sintetizador de ânimo até que finalmente descobri um ajuste para desilusão. (…) Por isso eu programo esse sentimento duas vezes por mês; acho que é um tempo razoável para me sentir desiludida em relação a tudo …” – Iran, esposa de Rick.

No estudo de Steven Best e Douglas Kelner percebemos as sutilezas da trama quando analisam como Dick coloca uma visão futurista de Marx de um proletariado rebelde usando o  modelo de androide Nexus-6 que, ao adquirirem um alto nível de auto-reflexividade, repudiam seu status de escravo, rebelando-se e fugindo para a Terra onde podem viver uma vida livre.

Ao mesmo tempo Dick revela um retrato de uma sociedade extremamente consumista, que não polpa esforços para adquirir animais a preços altíssimos em busca de status. O fetichismo das mercadorias que extrapola todos os limites fica claro quando Rick fica endividado comprando um animal orgânico, já que a extinção da grande maioria dos animais, esses são raríssimos e de difícil aquisição, agora são os indicadores de status de uma pessoa. Rick até meados do livro só tem uma ovelha elétrica, uma forma de enganar a sociedade, mas não se sente satisfeito até conseguir comprar um animal de verdade.

Durante sua caçada aos seis androides, o protagonista começa a sentir empatia por esses seres se questionando sobre o que realmente define um ser humano e o que o diferencia de um androide, essa questão existencialista é uma constante na vida de Rick que agora começa a duvidar também de suas origens quando conhece outro caçador de recompensas, Phil, supostamente um androide com memórias humanas implantadas em sua programação, essa revelação a Rick acaba com todas as suas convicções de ser um humano e trás para ele grande angústia quanto à natureza do seu trabalho. Ao contrário do que passa no filme, o livro não explora tanto a paixão entre o protagonista e a androide Rachel, um recurso obviamente que funcionou muito bem no cinema para atrair público ( e que ficou muito bom no filme ao meu ver) no livro ele sentiu atração sexual e empatia por ela no máximo.

” _ Um androide não liga para o que acontece a outro androide. Esse é um dos indícios que procuramos.

_ Nesse caso, você deve ser um androide – disse a srta. Luft.

Isso o paralisou; ele olhou fixamente para ela, que continuou…”

Através dessa insatisfação de Rick com sua tarefa de matar androides nos deparamos com mais uma genialidade do autor, o Mercerismo, uma religião criada para que os humanos restantes na Terra pudessem se conectar com todos os outros e com um “ser maior” através de uma máquina onde todos os egos se fundem passando por um transe espiritual que proporciona a sensação de completude transitória.

Em um episódio onde Rick Deckard se encontra com Mercer ele questiona sua tarefa de matar androides e o suposto messias assim o responde:

” _ Você será requisitado a fazer coisas erradas não importa para onde vá – disse o velho – É a condição básica da vida, ser obrigado a violar a própria identidade. Em algum momento, toda criatura vivente deve fazer isso.”

O trecho demonstra clara influência do Bhagavad-Gita na conversa entre Krishna e Arjuna quando este não quer lutar na guerra e Krishna o relembra quanto à necessidade de cumprir com sua missão, mesmo que o desagrade.  Em entrevista Dick afirma que leu bastante livros de filosofia oriental, de budismo e hinduísmo e afirma tais influências em suas obras.

A edição especial de 50 anos da editora Aleph é primorosa, além de ótima diagramação, arte da capa e ilustrações perfeitas, essa edição contém vários extras inéditos como uma carta de Dick aos produtores do filme Blade Runner, a última entrevista concedida pelo autor, um posfácio pelo tradutor desse edição Ronaldo Bressane e um estudo por Steven Best e Douglas Kelner, portanto temos um ótimo material de apoio.

Quanto à escrita posso dizer que a narrativa é fluida, o autor consegue nos passar toda a complexidade do tema de forma clara, sem prolixidade, tanto que o livro é curto. Os capítulos revezam os pontos de vista entre Rick Deckard e Isidore, o que também trás leveza para a leitura.

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A ovelha da Dra. Brinquedos veio nos bridar com sua ilustre presença

Assim como Philip K Dick nomeou seu livro com um ponto de interrrogação, concluo a minha resenha com outro questionamento. No filme não vemos a ovelha elétrica nem qualquer menção à importância dos animais, mas é o cerne de maior valor e por isso deu nome ao livro.  Se humanos na Terra só conseguem ter ovelhas elétricas e sonham com as reais, será que androides em Marte tem ovelhas reais e sonham com as elétricas? A vida de um androide estaria tomando mais sentido que uma vida humana? O objeto criado está substituindo o criador? Seria Rick Deckard um androide ou um humano?

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“Meu grande tema é: quem é humano ou quem apenas finge ser humano? A menos que nós possamos estar individual e coletivamente certos da resposta a essa pergunta, enfrentamos o que é, no meu ponto de vista, o problema mais grave possível. ” Philip K. Dick

Encerro essa jornada na cabeça de Philip K. Dick querendo ler todas as suas obras. E vocês já leram Andoides sonham com ovelhas elétricas? ou algum outro livro do autor?  Podem me indicar os próximos? Comentem abaixo 🙂